10 de set de 2007

poçossssso

Farsa
1
farsa, sou um farsante, in-des-culpável, um farsante, um enganador, mais que um fingidor, em tudo, um professor farsante
um marido farsante
um amante farsante
um homem farsante
e ainda um farsante homem
por traz e pela frente
farsante

2

Sou
um poeta farsante
um escritor farsante
um filho farsante
um amigo farsante
um sonhador farsante
um pai farsante
um cara bom, sou, mas farsante


3
tudo em mim é farsa, é falso, é mentira
e não escrevo este não-poema farsante
como um moralista, pra dizer e me purificar,
me chamando de farsante,
não existe um jeito não farsante de ser, de estar e de ficar
porque todas as roupas farsantes servem para encobrir as roupas farsantes de
todos os tecidos farsantes de ser, de estar e de ficar
por isso escolho o tecido de
ser imoralista,
ser profanamente sagrado e sagradamente profano
modos de me mascarar, farsante que sou,
sou pornográfico

detesto o erotismo
o amor erótico, sensual, sugestivo, me é insuportável,
é coisa de gente bacana, gente legal, gente bem resolvida,
bem nutrida, gente bem posta, gente amada, gente chique,
poliglotas a traduzir os traduzíveis das outras línguas,
pois não querem saber que a babel intraduzível está sempre dentro de sua
própria língua, e são tradutores do pior de nós mesmos: as publicidades das
mesmas iguais castas desejáveis de outras línguas imperiais, eis o poliglotismo
monoglota, de aprender uma outra mesma igual diferente língua de ponte
aérea internacional, enquanto aqui, no chão do mundo, no interior
proliferante de sua língua, os intraduzíveis são cassados, na indiferença,
dos poliglotas eruditos da dicção acertada, da prosódia forçada dos filisteus
gosto mais do bacanal, bem bacana, que do bacana, sem citar fontes,
ou dizer intertextos e interditos, porque sou farsante, e se antes
gostava de amante no lugar de esposa, hoje já não gosto nem de uma
nem de outra, porque um verdadeiro mentiroso farsante, não pode
aceitar o entre-texto, a outra ponta do iceberg, por isso não quero
nem a amante e nem a esposa, porque quero uma outra farsa feminina
e entre o indireto e o direto
prefiro prostitutas a meretrizes
prefiro cu que ânus
prefiro boceta que vagina, embora ache bacana xoxota
e vou logo dizendo, antes que o diga, não sou um poeta marginal
ou mesmo poeta, ou mesmo qualquer coisa nome de ser nomeado
sou inominável, impronunciável, impublicável
e se for pra ser, digo apenas que
não sou marginal, sou farsante, vaginoso e mentiroso
e mesmo a farsa que faço e realizo, nela, nesta farsa,
faço o que poço, dentro dela, a braçadas largas e incompetentes, pois sou um farsante dentro de minha farsa, e mesmo nela e ainda dentro mais dela, continuo farsante,
muito mais que antes
muito mais que depois
porque nasci farsante,
morrerei farsante
e meu mais farsante pequeno grande sonho farsante é o de transformar a morte em farsa dela mesma, de modo que a morte seja o nascimento e o nascimento seja a morte, porque quero morrer na vida e viver na morte, sempre como um farsante

4
não um palhaço
cansei de ser Dom Quixote
motivo de risos
antes dele, prefiro a farsa que vem do antes,
antes dele, prefiro Sancho Pança, a ele,
com sua gorda farsa de disfarces pertamente distantes
o não dito pelas farsas aristocráticas
e mesmo na farsa dele, prefiro a que não existe nele,
e me inspiro na farsa que nele não está nele,
porque foi preenchida pelas farsas farsantes de Dom Quixote
prefiro a sua inexistente farsa perambulante, sem ser escudeiro ou cavaleiro
andante
porque gosto da farsa que existe no não existente e a que não existe no
existente
e meu desejo utópico é o de um dia ver a farsa democratizada, levemente, sem o peso que carrega este poema farsante,
desejo um dia em que uma pessoa qualquer do planeta
possa escrever um poema farsante e tirar meleca do nariz
enquanto o tempo passa, com sua farsa traidora,
sem me preocupar, esta pessoa qualquer, com o municipal, o estadual ou o federal e mesmo o internacional
sem a angústia do cânone ou do nome
um mundo em que um qualquer tenha o direito esquerdo de voar vôos altamente farsantes, pra alargar o chão das farsantes faces dos disfarces corporais,

5
aí sim deixarei de ser farsante
porque será o dia em que a poesia saiu do texto e alcançou o testículo
vaginante

Um comentário:

arquiteliteraturas disse...

WER SAGT DA? QUE IMPORTA, Ô PÁ?

P: Ich hasse sie!
L: Nein. Só se for de prazer.

P: Ich werde sie kreuzigen!
L: Nicht. Só se atar ao catre

P: Ich werde sie lustmorden!
L. Schulipa!!! Só depois se casar depois.

Homem, esses poços, essas farsas, esses Eus pós-nihilistas, enfim, essas prosódias das consciências divinais, essas xoxotas e esses cus estão assim tão absurdamente nítidos em seus poemas que parecem ecoar os pan-eróticos rizomas ou slogans dadás.

Mas Ich werde sie lustmorden nicht! O lance é, à moda do faloscópico Paizinho de Ibiraçu, curtir com as línguas também isto:

Les dents, la bouche
les dents là bouchent
l'aidant la boiche
l'aiddes dans la bouche
lait dans la bouche
...
les dents - là bouche.

Salve!