8 de out de 2007

FELICIDADE

eu sou a felicidade, a alegria, um outro mundo, não este aqui.
sou o encontro do e no desencontro, nada disto: família
nela mesma, marido e mulher por eles mesmos, o rico feliz
de seu estado de ilha, repleto de companhias puxa-sacas,
os responsáveis diretos pela miséria deste mundo aqui,
sou o contentamento, o banquete pra todos, uma outra
humanidade, em que não sejamos nós-mesmos, humanos,
apenas, e em que a promessa, a promessa pros joãos,
pras marias, a promessa nos pedros e nas joaquinas, a
promessa libidinada em cada olho deste planeta aqui,
seja repartida, seja tomada, seja espalhada, não a partir,
mas seja nossa, de cada qual e de todos cada,
e que a felicidade, quando realizada, no amor, no encontro,
na amizade, na fala, na audição, no tato, no sabor, na
imaginação, neste poema, a felicidade seja a mais particular,
a mais eu, a mais singular, por ser a mais pública, a mais
não-eu, a mais total.
eu preparo um poema da bomba atômica:
a fissura plutônica dos núcleos dos prótons dos poucos.

3 comentários:

adynata disse...

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

(A felicidade - Tom Jobim & Vinícius de Moraes)

arquiteliteraturas disse...

CONEXÕES E HETEROFLEXIBILIDADES: PRINCÍPIOS DO RIZOMA EM NO POEMA

O rizoma é heteroflexível pelo primeiro e segundo princípios “de conexão e heterogeneidade: qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, P. 15). “Eu” e "Nós" dee “Felicidades” também o são. O que seria essa heteroflexibilidade? Associar-se-ia às linhas de territorialização e de fuga por onde se move e se produz o desejo? Poder-se-ia associá-lo aos afetos e ao erotismo? Nesse poema de Luís, sim.

A heteroflexibilidade afetiva, erótica ou estética seria um atributo (não se fala em qualidade) de algo ou alguém inclinado ao diferente que se predispusesse a conectar-se com o mesmo, porém distinto de si? Ou seja, será que o heteroafetivamente inclinado refutaria a conexão casual com o homoeroticamente pendente no momento em que as circunstâncias o favorecessem nos contextos de uma parataxe assindética?

Nesse caso, diriam os taxonômicos arborescentes (estruturalistas): não há aí um grau elevado de bitransitividade afetiva? Não. O que se mostra aí é um princípio rizomático do erotismo: conexão de um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remetendo necessariamente a traços da mesma natureza, o que põe em jogo distintos regimes de signo, inclusive estados de não-signos (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 32). Casualmente, energizados pelas ondas eletrizantes de uma cerveja, os afetos na linguagem podem estabelecer múltiplas conexões. Posto que o rizoma, pelos seus quinto e sexto princípios, é destituído de ordem e hierarquia (Op. cit, p. 33), pode-se falar também em homoflexibilidade: aqueles signos a que, inclinados ao mesmo gênero, não se lhes desagradaria a possibilidade casual de intercursos com o diferente, uma vez que o rizoma se define também por uma ‘circulação de estados’.

Nesse caso, as linguagens poéticas (à moda de platôs) as oposições e as identidades) não se filiam necessariamente a gêneros, números a graus, mas a multiplicidades. Em temos de ‘slogans’ e leis, as contradições dos diversos regimes discursivos apontam para isso: diz-se que os postos se atraem, mas também se fala da busca da alma-gêmea. Nem todo oposto é atrativo; nem todo mesmo é repulsivo.

O “Eu poético” de “Felicidades”, ora no singular, ora no plural, manifesta a heteroflexibilidade da linguagem, por meio de um tipo de ‘platô contínuo de intensidade que substitui o orgasmo, a guerra ou um ponto culminante’ (BATESON, apud DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 33).

Vale, Luís, Cabra maaaaacho!!! Mas eu queria ver o paizinho (estruturalista e arborescente) lendo seus poemas. Alopraria... Ou não. Saúde!!!

luazual disse...

Salve, poeta, me deixe tirar um naco dessa sua felicidade pra encher de esperança essa minha felizidade antes que exploda a bomba-poema e eu não consiga ver que o sonho não acabou e finalmente se transforma em realidade.
Beijo. aquela do Egito