10 de nov de 2007

Idades

quero ter todas as idades, ser velhíssimo , vetusto, milenar, pré-histórico, mineral, as vísceras primevas dos começos, quero que digam e ajam em mim, os futuros últimos dos últimos úteros do infinito passado, ir fundo no fundo sem fim do poço dos tempos e alcançar os espaços das encruzilhadas do muito antes e do muito depois de todas as impossibilidades inexistentes, abraçá-las, beijar seus lábios, sugar suas línguas, sem míngua, sem íngua, e puxar pra mim o que poderia ter sido e nunca foi: as eras geológicas improváveis, os seres todos que começaram, esboçaram, se insinuaram, e pararam, por um motivo qualquer, de acontecer, de tecer os seus jeitos de ser, quero ser velho, velhíssimo, ancião, o Noé patriarca de uma diversa arca, a salvar do dilúvio todas as espécies lúdicas, lúcidas em suas músicas e em suas túnicas de serem únicas, em suas guerras púnicas a favor do louvor do amor de combater a dor de todo terror; quero ser o Adão adâmico sem culpa, sem desculpa, me deixando levar por uma Eva-ave a voar por sobre e por dentro entre meus poros pra alcançar o paraíso perdido de um mundo ultrapassado, antes, muito antes, de todo depois, tão antes que já é o extremo depois e o extremo agora, a intensidade dos tempos no broto dos inícios, adâmicos precipícios dos princípios de todos os vícios e cios de ser e de estar, sementes das sementes das sementes das sementes, dos óvulos dos sêmens, quero ser

quero ser homem adulto, e adúltero, adubo pra outros húmus, não os de ser homem-homem, mas um homem-hímen, um homem-bomba orientado pela mãe dadora do infinito, me dá, oh mãe, me dá tudo o que pressinto, e sinto, pra lançar-me, de novo, oh mãe, a favor do labirinto dos ritmos das verdades que não minto, de todas verdades que, apesar de mim mesmo, me fincam na abertura dos limbos dos tempos lindos, indo pro Olimpo limpo dos seres sujos, oh mãe dadora, sujos de existir e de insistir e de resistir, de friccionar os corpos e as almas nas lamas de viver, oh mãe, em ramas de amassar os pães nas mãos dos amanhãs, sem as vilãs tecelãs dos túmulos de morrer sem herdar novos jeitos de ser, de sofrer, de viver.

quero ser jovem , tão jovem, que em mim chovam chuvas torrenciais e tropicais dos mananciais de outras épocas glaciais; jovem para ser antigo, a babel solta da nave louca da língua noutra língua de sonhar e de amar; um jovem pra viver minhas muitas velhices, pra dar forma e gestos e corpos e interações e refrações e ações as minhas muitas vidas impossíveis em mim ; um jovem Sanção com as forças concentradas nos cabelos das artérias do coração, pronto pra, em mão dupla, levar e trazer os sangues de todos os mangues, de todos os langues seres; jovem pra acordá-los através dos lábios lábaros de minha libido de trazer o sexo, o tesão, a fome, nos olhos, na fala, nos sonhos, na mão outra de uma outra fome de louvação; um jovem abusado, que não economiza , e que oferece sua mais-valia vital pros vitrais medievais de outros mananciais: os orientais, os ocidentais e os profanos sacerdotais de uma religião da legião de todas, e repito, de todas as regiões, as do sul, do norte, do oeste, do leste e as, principalmente, repito, principalmente as da direção imprevista, sem sul, sem norte, sem leste e sem oeste, sem rumo rumo ao rumo do rumor do humor do que há de juventude na plenitude de todas as longitudes
quero ser criança pra ser a eterna terna fiança da confiança na aliança entre o antes, o agora e o depois de todas, e repito, de todas possíveis e impossíveis crianças nas presenças nas ausências de todas, e repito, de todas formas de esperanças; ser criança, quero ser, pra, principalmente, deixar de ser, esquecer o ser de ser, de ser luís, de ser eustáquio, de ser, principalmente, soares, esquecer o ser de ser professor, de ser assalariado, mensal, brasileiro, humano, racional, igual, monumental; esquecer o ser de ser masculino, de ser passado, de ser futuro, pra ser só o presente inconsciente de ser, sem ser, apesar das histórias de tantos jeitos de ser e de viver, como se determinados jeitos de ser fossem ser pra esquecer outros jeitos de ser; quero ser criança, pra esquecer o ser-ser, sendo, sem-ser, em mim.

quero ser todas as idades pra vivê-las, agora, em intensidades, nesta, e em todas as outras cidades ; quero ser todos os seres, pra viver, em mim, as intensidades das idades nas cidades de todas qualidades, persistentes em todas , e repito, em todas enfeitiçadas fluorescentes quantidades, de fazer-se, apesar de tudo, novas, velhíssimas, novidades.

5 comentários:

renata disse...

O carbono de nossos osso foi um dia parte das estrelas, o sangue de nossas veias foi um dia parte dos ocanos e os fluidos dos nossos corpos estão dançando com a lua e as estrelas, e o sol e as marés...respiramos moléculas de pessoas que amamos e de pessoas desconhecidas... Somos todos quimicamente relacionados(Achterberg)
É isso Luis, seres desejantes,realizamos no presente outras eras e esferas...temos todas as idades dentro de nós, inclusive as futuras...
Adorei o poema
me lembrou os desvarios da época que estudava símbolos com os amigos junguianos, boa época... Abraços
re

atirandeletra disse...

Concordo com a Renata, somos mesmo parte do universo: a bosta das estrelas, a escória do oceano, o lixo da lua... mas nossas moléculas são ainda melhores, pois temos a gula dos Calígulas... engula isso, vovô!

ABRAÇÃO

Disguiser disse...

É...a ânsia do tempo, de regressos, convergências. Múltiplos? Divididos? Soma? Somos?
As palavras e o tempo: sendo sem ser. Escamotear as impossibilidades na fome do Quero que não para querer. Ainda bem...

beijo

Jacinta disse...

Legal sua abordagem a IDADES. Acho que somos muitas pessoas numa única pessoa, cada uma vivendo a seu tempo.
Gostei muito do seu blog.

Jacinta Dantas

arquiteliteraturas disse...

PARADIGMA (MORFOFONÊMICO) DAS PRODUTIVidades DE "IDADES"

("[IM]POSSIBIL")
("INTENS")
("C")
(ATUAL)
("QUAL"
("QUANT")
(REAL)
(MULTIPLIC)
(HECCE)
(HOMBR)
(IDENT)
(PERSONAL)
(INDIVIDUAL)
(MANEABIL)
(FALIBIL)
([DES]"CULPABIL")
([IN]DISPONIBIL)
("NOV")
(PROSPER)... X (n+1)x(n+2)x ... (n+...) IDADES.

Que me releve o amigo poeta blogayro (grafia com sotaque lusitano) pelo apego à forma, posto que isso apenas reflete o que também nos dá o poema (entre as aspas acima): deslizamento sobre regimes de signos com múltiplas camadas semióticas. A validade disso?

Ora, este blog não traz o tipo de texto daqueles escritores que se vêem na situação de depender do elogio de jornalistas, que raramente sabem algo, seja lá o que for, que escape dos preconceitos de seus empregadores.

É que nas "memoirs" das IDADES, O "mim", o "eu" do "cogito", se pulveriza nas superfícies das camadas do tempo, agenciando maneiras de nada dizer sobre si. Eficientíssima estratégia poética, posto que, com isso, detalhes desse ou daquele corpo tendem a perder nitidez na página, como de fato ocorre na vida. Destacaram convictamente todos os ínclitos comentaristas, sobretudo o Atirandeletra. E mais: à poesia não se obriga a dizer toda a verdade.

Grato pelo belíssimo texto, Luís. FelicIDADES!!!