8 de dez de 2007

As mãos

“nada nas mãos: me disseram que havia uma guerra.” ( Carlos Drummond de Andrade, só tenho duas mãos vazias)

minha mão é uma entidade estranhamente próxima, e no seu movimento espontâneo, sem que me detenho, coça a nuca, resvala no sexo, tateia a cabeça do pau, vassoura e escava, com suas unhas, uma caspa epidérmica na sola do pé, e, em riste, projeta o projétil do dedo indicador em direção às crateras do nariz, trocando-o pelo polegar, numa desenvoltura requintada, embora tenha, sem tesão, aprendido, com a educação dos cinco mil sentidos, a não, sem papel, vasculhar o cu, deixando-o só.

minha mão abre e fecha, imitando o movimento do coração. no entanto, ela não remete, pelo corpo, o sangue, ela, no seu abrir e fechar tensionados, prende e expulsa o ar sangüíneo do impossível, e logo o, ilusoriamente, recupera, como se segurasse, num jogo inconsciente, e soltasse, futuras apreensões e libertações, ou apenas se lembrasse de passadas contenções ou frustrações materiais e afetivas.

a mão é redundante, pois tem a sua inicial nela mesma, além de inscrever também o M da morte. talvez porque o M de mão e o M de morte sejam também o M de mãe, pois toda mãe é um não transformado em mão, como que indicando que nos cabe, depois de nascermos, usar a própria mão, através do inexorável, da morte, no não do corpo da mãe, como se, com a mão, com M de mão, de morte e de mãe, fôssemos a mão da não morte da mãe, em nós, ou da morte, quando a mãe nos mata, quando nos ata em masturbações e perambulações, pelos furacões românticos de nossas mãos fechadas, em pessoais, caracóis, corações, quando não nos faculta, no incentivo da presença de mãe, a multiplicar nossa mão nas mãos alheias, quando nos confina na solidão de uma mão que não são mãos, impossibilitada que está para cumprir sua potência de mão, que é justamente a sua capacidade de sair de si, mesmo quando no em si masturbatório, pois a mão existe pra friccionar a lâmpada de Aladim, e nos fazer livres para estar ou ficar ou amar ou sonhar com quem quisermos, onde quisermos, como quisermos, já que a mágica talismânica da mão reside na sua propriedade de ser o cérebro fora da cabeça, de ser o coração fora do peito, de ser o sexo fora da enseada púbica, de ser os olhos fora dos olhos, o ouvido fora do ouvido, as pernas fora das pernas, os cinco sentidos sentindo nas digitais dos cinco dedos da palma, alma do pulmão da mão, inspiração e expiração, pois a mão é um lá fora que traz um lá dentro, um longe que traz um perto, a mão são as asas do corpo, a entidade capaz de expandir o mundo em nós; elas são os olhos em estado de toque, pois todos somos anteriores e posteriores a são tomé, uma vez que só acreditamos, depois de visto, tocando a música do toque da mão.

imagino minha mão na mão de minha filha, e penso na delicadeza transcendental desse gesto, ao andarmos de mãos dadas. então deduzo que a saída libertária e paradisíaca da humanidade, seu jeito de transfigurar o M de morte da mão em M de maravilha, reside precisamente na multiplicação, e no elevar à potência infinita, a propriedade da mão de ser um lá fora para um lá dentro, de fazer-se mãos dadas pelo mundo, de ser a ampliação da minha consciência e inconsciência de mão, pelas brechas e interstícios de meu corpo, de ser mão através de mão, de ser a mão que me alimenta, alimentando uma outra boca, de ser a mão que me banha, banhando uma outra pele, de ser a mão que me veste, vestindo um outro corpo, de ser a mão minha com a mão de minha filha, na mão de outras desconhecidas filhas e filhos, de ser a mão que acaricia a amante feita mão acariciando o rosto do interdito , em função da privatização emocional das mãos, de outras indefinidas e improváveis amantes, de ser, enfim, e em começo, como uma hóstia, a mão a dar, dada, dando, andando, como na teia, a aranha, no soco oco do sufoco, pois a mão resguarda, em si, o véu do inferno e do céu, como fel e como mel.

por isso a mão é feita pra segurar e pra soltar, pra nos mostrar que podemos, entre mãos, voar.

16 comentários:

Gabriela Galvão disse...

Luis,seu convite me fez um bem!...

(Soh p/ constar: vc estah no meu "Favoritos", tah?!)

Amei este txt! E engraçado q ontem eu escrevi um txt em q mencionei a lâmpada d Aladim; ñ publiquei. Vou fazê-lo, mas depois.(Adoro essas "coidências"!)

Amei este txt!!! Inusitado, mt bom!!!! (Eu ñ sei discorrer a respeito d arte; soh sei do q gosto e do q ñ gosto.)

Luis, fica bem!!! Abração!!!!!!!!!!

renata disse...

"As minhs mãos já foram menores e mesmo agora, nesse momento em que me esforço por me desembaraçar de tudo, elas me assombram. Ah! minhas mãos! Dez pontas, dez prolongamentos, dez pontos cardeais! [...] Queria acariaciar rostos, tê-los guardado nas mãos para uma noite como esta,[...] asminhas mãos, porque nunca usaram seu regaço de ofertas? São nessa noite celas que me prendem e soltam sonhos! (Maria Lúcia Dal Farra, 2005, p. 63).

Parabéns Poeta
que suas mãos continuem se metamorfoseando... e materializando em versos aquilo tantas vezes desejamos mas não conseguimos expressar.

abraços
re

Biaaahhh disse...

Seu texto fikou massa...Nunca consguiria escrever um texto desse tamanho para assuto tal...
Não tenho essa criatividade...!!!

Bye!!!


=]

Biaaahhh disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Biaaahhh disse...

DESCULPA...ESSE COMENTÁRIO EXCLUÍDO FOI MEU...TAVA TODO ERRADO...PUXA!!!Q PROFUNDO!!!Soh q eu naum tenho o mundo comigo...Soh o meu mundo!!!Me linka?Vou t linkar aki!!!Sera que vc pode me avisar quando puser um post novo???Aí posso t ler sempre!!!!

=]

Biaaahhh disse...

Ahhhh!!Naum ligue não + eh q eu ainda tenho 13 anos...Naum entendo...Vc tem mt talento,parabéns...

arquiteliteraturas disse...

"minha mão é uma entidade estranhamente próxima, e no seu movimento espontâneo, sem que me detenho, coça a nuca, resvala no sexo, tateia a cabeça do pau" (LUÍS, 2007).

Encharcado de sexo, sim, no entanto mais como pensamento que como ação. Quiça uma incursão do apolínea no dionisíaco. Fantasia na realidade, masculino no feminino e no plural. Enfim, mãos drummond-eustaquianas.

Vale, Le Padre.

mari. disse...

Oi? Tudo bem?
Gostei muito do nome do teu blog. Da uma ambiguidade bem interessante.
E sobre esse post: poxa, você esconlheu um assunto a primeira vista simples, mas ao ler o texto percebe-se que é bem mais complexo do que se imaginava. Você sabe usar muito bem as palavras. Gostei muito ;)

Ahhh e ultima frase foi a melhor, resumiu tudo.

beijos ;*

mari. disse...

Imagina, gostei muito de conhecer teu blog. Pra falar a verdade já tinha vindo aqui antes, mas como estava sem tempo não tive tempo pra comentar, daí te vi no blog da biah e aqui estou eu novamente...

E é exatamente isso que você falou. É Assim que devemos agir, revendo tudo o que fazemos e deixamos de fazer. Se cada um fizesse isso creio que já seria um começo para um mundo com mais paz não? ;)

beijos ;*

arquiteliteraturas disse...

ERGO,...

Nossa concentração no belo é um estratagema apolíneo. Nisso, o seu "As mãos" se equilibra sobre uma película fina em que nos amontoamos, postando-se entre o sublime e a fealdade daimônica da natureza.

Coisa na mão e mão na coisa, seu texto se inscreve na elegância de uma língua na xoxota.

Aliás, muito elegante seu comentário sobre meu Post DIE BRÜCHE: LE CAP, YBIRAÇU ET LE CARATEC.

Que direi mais? Grato!!!

Vale, sempre.

Carol disse...

E graças as mãos conseguisses publicar essas palavras :)

M de mundo :)

Tudo de bom pra ti!

Gabriela Galvão disse...

Postei o tal txt q tem "gênio da lâmpada" no meio...

Cadê, estamos esperando mais!

Abraço! : )

mari. disse...

Oi Luis, gostei muito do teu jeito de escrever e dos teus comentarios ;)
Vou te linkar, tudo bem?
Sempre que pider estarei por aqui ;)

beijos ;**

mari. disse...

Oi Luis? =]
Com certeza! Não há coisa melhor que sentir o vento no rosto, fechar os olhos e poder imaginar estar voando ou o que mais a sua imaginação lhe permitir ;)

beijos ;**

mari. disse...

Passando pra te desejar uma ótima sexta-feira ;)
beijos ;*

mari. disse...

Caramba, tu escreve muito bem sobre qualquer assunto. Adoro teus comentarios ;)
Muito obrigada!
Beijos ;***