18 de jul de 2008

nósdenós

( (

esta casa tem dois
deuses finitos
respirantes do pulmão do dois em um
impulsionados pelo ar-mistério
deram-se as mãos
os pés
as coxas
o riso
as lágrimas
os olhos
os toques
os sexos
os corações
as almas-sexos-corações
esta casa tem dois
deuses finitos
em cotidianos
veres
ouvires
degustares
tatuares (
olfatares
...
...
sentem além e aquém
os murmúrios incessantes
das essências e das aparências
inexplicáveis
simulacros ideais de amarem e de acharem que amam
aos olhos atrás das cortinas
nesta casa, esta casa dois deuses finitos
vivem esta extensão vocabular:
o a-m-o-r
intuição da desmedida
nesta casa,
eu e ela
acertamos e erramos
nesta casa,
não basta, apenas ,
errar, ou acertar
no corpo-mistério,
dentro da casa,
em seu quarto,
sua pele rebocada,
sua janela lambida
de dentro e de fora,

de labirinto e de libido
em suas portas entreabertas,
a cozinha da casa,
o sabor da casa,
o cheiro da casa,
a alma da casa,
no tempero da vontade de comer,
entre mim e ela,
nesta casa,
outras bocas
outros escuros,
outros corpos,
outras casas,
bacanais,
nesta casa, das suas bordas, das frinchas, das gretas,
das fendas fundidas fedidas perdidas dos rodapés, dos vincos
das trevas das casas de
formigas, baratas e ratas, dos sortilégios úmidos dos mofos, desta
casa, das poeiras, dos pós dos
restos,
a cidade avulta,
e eu não a conheço,
quando,
nesta casa de subúrbios e de súbitas
surubas,
as outras,
as idades,
outras,
das cidades,
na cidade-casa,
perdem a cidade,
no desconhecimento de mim,
e de ela,
no amor fazendo-se,
de fato, ou de falo, ou de falta
infinito,
aquém da casa,
nesta casa, nesta casa,
todas as ruas do mundo,
todos os becos do mundo,
todas as fomes do mundo,
todos os mundos nesta casa-mundo: eus e elas.
pais de todos os pais,
filhos de todos os filhos,
amados de todos os amantes
mães de todas as filhas,
irmãos de todos os irmãos,
amigos de todos os amigos,
nesta casa,
não basta esta casa,
todas as casas,
nesta casa,
a asa saca,
fora dela,
os deuses finitos,
moradores de outras casas, outros mundos,
outros outros,
outras,
nem eu nem ela,
a casa descasada,
núpcias de múmias,
uma casa,
só, nela mesma,
não basta,
pois o amor, nesta e noutras,
é grande demais, em sua menoridade
desprestigiada,
de pau-a-pique e de chão batido, na beira de um esgoto,
pra uma casa,
pra um rosto,
pra uma vida,
pra um nome,
um sobrenome
nestas casas,
o barraco caindo,
no barranco,
do córrego,
na barbárie,
de outras casas,
é preciso morar e foder, também,
na cama dos mundos imundos,
saindo do tédio de uma casa,
de um eu e ela,
românticos,
e aqui, nesta casa,
a alegria de casas
sem muros,
sem portas,
sem, é pouco, nesta casa, uma família-casa,
apenas,
eu e ela,
nós de nós

19 comentários:

Paradoxos disse...

grande cenário verbal e poeticamente muito bem construido meu amigo
palavras
palvras
um perfeito tempero saboroso de se ler e reler...


abraços

Edu

arquiteliteraturas disse...

QUIS DILIGIT QUOD IGNORAT? NODULUS?

"nesta casa, [...], das frinchas, das gretas, das fendas fundidas fedidas perdidas dos rodapés, dos vincos das trevas das casas de
formigas, baratas e ratas, dos sortilégios úmidos dos mofos, desta casa, das poeiras, dos pós dos restos,[...]" (DE LA MANCHA, 2008).

Hospedes, comensais, predadores, parasitas, simbióticos e "proctocooperadoras", fomigas baratas e ratas se lançam nos "sortilégios dos mofos" das entranhas de uma casa dentro da outra ad infinitum, como letras que mudam de lugar nas dobras da superfície de uma página. Nós de noses, essa escrita críptica ata e embola o umheimilich onde se supõe tudo conhecer. Ou simplesmente lê as relações entre os seres e o tempo, que tem pó; e pode ser cativo de um Ibiraçu manco e fugitivo.

Grande Luis, flavius que seduz com osculi e digitais as estreitezas machas das histórias, geo[ky]grafias e ciencias sociais! Há tempos não tomamos umas cervas vc, paizinho, petersem (adorou seu jeito de socializar-se), cláudius e eu! Férias e saudades! Valeu pelos nós. A gente se vê pelo campus.

Dauri Batisti disse...

Este teu modo de escrever é saboroso, não pelo que se entende, mas pelo som que escorre das frases. Valeu.

renata disse...

Eita Luis... "no amor fazendo-se,
de fato, [...] ou de falta
infinito aquém da casa" Amei isso!!!
Obrigada pela visita ao Letra e Fel... Olhe cara, tô com saudades de você, tô aqui na correria, muito trabalho...pouca grana... eheheheh , mas tá tudo onde deveria estar, caminhemos... vou te procurar para tocarmos a dissertação.
Abraços

Eurico disse...

Sim, somos todos nós deuses-finitos, Poeta! E nos movemos, sentimos e existimos na virtualidade dessa casa, imensa casa, que eriges com a matéria prima do imaginário. Sinto nesse poema uma força, aquela mesma força e voz tamanha que leva o Caetano a cantar...quase perco o fôlego na leitura, força de enxurradas, força da Poesia!
Abraçamigo, sempre amigo.
Paz!

Raquel disse...

Esse poema nos dá uma força imensa de prosseguir em tudo!
Muito lindo!
Beijos
http://sex-appeal.zip.net
htp://cara-nova.zip.net

instantes e momentos disse...

dando meu passeio de sempre pelo seu blog. Bom de ler.
Maurizio

NAELA disse...

Nesta casa as palavras controem sentimentos!
A alma paira no ar livre deixando os versos livres de poesia!
Maravilhoso;)

vero disse...

Meu amigo,
vou privatizar o meu blog. Vou enviar um e-mail para a sua caixa de correio com um convite para poder visualizar o meu blog, espero continuar a contar com a sua presença :)

Um beijo

Germano Xavier disse...

uma casa
sem casca
com casca
dura
fura
moro de saltar
armadura
aranha armadeira
madeira do teto
madeira do chão
uma casa
nossa casa
nossa vida
nossa morte

Abraço forte, professor.

Germano

f@ disse...

Olá e obrigada pela visita às nuvens...
Belissimo poema....
Gosto de infinito..de palavras com sede ...
beijo das nuvens

f@ disse...

Olá e obrigada pela visita às nuvens...
Belissimo poema....
Gosto de infinito..de palavras com sede ...
beijo das nuvens

Paradoxos disse...

na ausencia de post novo deixo um fraterno abraço amigo

Marco Aurélio Bissoli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Loba disse...

comecei a gostar nos primeiros versos! vieram os outros e escorreram - alguns pelas fretas da memória (história) outros pelos desejos de amanhã!
ah, tão bom voltar a te ler!
beijo-beijo
ps1. te perdi e nem sei porquê! talvez pq eu tenha perdido a mim! rs...)
ps2. que encanto os comentários todos!!!

Calebe disse...

Esse teatro de palavras parece o próprio atuar dos corpos diferentes, e por serem diferentes poderem se dar tanto um ao outro, e se "rabiscarem" na realidade da vida a dois em um.

Tanta coisa a dizer, mas que só pode ser expressada na linguagem dos corpos, como o João Cabral diria...

(Valeu pelo carinho de suas leituras e comentários)

Abraços,

Calebe

Florescer disse...

Desde a primeira vez que te li fiquei com essa repetição no pensamento:
na cidade-casa,perdem a cidade,
aquém da casa, nesta casa, nesta casa,
mundo,mundo,mundo,
uma casa,nestas casas,o barraco caindo,no barranco.
E parece que a casa cai nos barrancos horríveis do desamor.
Abraços
Jacinta

Dora disse...

O amor de eu-e-ela ( que os "nós" enlaçaram) perpassa pela casa e funda o que chamamos lar. A casa não é só é a construção de tijolos e argamassa: é a habitação-concreta-abstrata que guarda os "penates" e res-guarda o amor...Mas, quem ama se abre para as outras "casas do mundo"!
E "sabe", pelo amor que construiu, o amor dos outros das "outras casas"...
Se eu fosse desenrolar essas frases, esse poema, essa história contada em versos...eu ficaria bom tempo aqui, aqui, aqui.
Gostei deveras do que li.
Abraços, poeta.
(E beijos para os "nós" formados dos "nós".)
Dora Vilela

Ilaine disse...

Querido amigo!

Maravilhoso voltar e me perder com suas palavras! Tudo continua lindo.

Beijo