11 de out de 2008

reza brava

O filho da puta chegou como um milagre, incrível, e a gente ainda acha que a vida não vale a pena, depois desses milagres todos, desses nascimentos todos, surpreendentes, das palavras nascendo enquanto as escrevo, enquanto as digito, um tremendo desafio, porque posso dizer tudo, posso fazer as combinações que não puder, que nem sei que possa, porque é um milagre, um susto, um imprevisto de sonhos que as escritas podem escrever, e tudo está absolutamente aberto, e afirmo novamente, absolutamente aberto, para escrever o que for e o que não for, nada me prende, não existem limites, vou afirmar novamente, não existem limites, nem morte, nem escravos e senhores, nem os clichês, nem esquerda e direita, nem o norte rico e o sul pobre, nem a minha masculinidade, o meu sexo, as minhas marcas todas, os emparedamentos do mundo, o trabalho, o salário, e suas faltas ainda mais pilantras, nada disto é limite, pelo contrário, tudo isto e muito mais são desafios, desafios, entendamos, e mesmo esse entendamos, esse verbo assim, metido desse jeito, nada é um limite, ou, antes, tudo, tudo, absolutamente tudo, cada mínima impossibilidade deste mundo, eu não saber voar, eu não me compreender, eu ter medos, eu ser covarde, eu não provar as mulheres que gostaria, por aí, tudo, todo limite que existe, a fome, as injustiças todas, a impossibilidade da amizade, que levasse a amizades, e a amizades, sem nunca ser apenas o amigo, ou o grupelho de amigos, os gregários, interesseiros, enfim, tudo é limite, tudo na vida, até escrever este texto, deixar os dedos irem catando as letras no teclado, automaticamente, rápido, mas automaticamente, tudo é limite, eu agora ter uma certa dor de cabeça, sinusite, por causa certamente da cerveja que tomei ontem, eu estar com um pé apoiando-se em outro, o pescoço doendo, a voz lá fora, distante e perto, do apartamento do lado, esta vontade ainda um pouco distante de conversar, a vizinha aparecendo, de quando em quando, na minha cabeça, esta meleca no nariz, este pigarro, a boca seca, o meu pinto mole, eu ser eu, tudo é limite, tudo, a impotência de não poder acionar os fios de um outro mundo, onde não tenha nada desses limites aqui apresentados, além dos aqui não mostrados, um mundo sem o fmi, sem o banco mundial, sem o império chinês, português, inglês, americano, egípcio, e outro qualquer, nem capitalista, nem comunista, tudo, sim, tudo é limite, limites sacanas, mas, insisto, tudo é limite, e todos esses limites só existem, acreditem, a escrita pode, todos esses limites só existem, só estão aí, aqui, ali e lá, pra gente escrever o impossível.

7 comentários:

Dauri Batisti disse...

Escrever o impossível, poder que se tem com traços e desenhos, curvas e pequenas retas, multiversos sonoros. Impossível poder de dizer tudo e possível desejo de dizer sempre, sempre até quando der. Valeu.
Um abraço.

Jacinta Dantas disse...

Todas as combinações possíveis em que o limite não é o céu. As possibilidades e os limites parecem se encerrar no Eu que está aqui, procurando as letras para dizer alguma coisa, qualquer coisa que expresse o quanto vale a pena te ler.
Abraços

Germano Xavier disse...

escrevemos e nos sentimos mais perto de deus. concordo quando dizemque escrever é um exercício de imortalidade. na palavra temos a possibilidade de ficar, de fincar sobre o terreno um legado, positivo ou não. e tua escrita é sobre a impossibilidade do possível, ou o contrário.

abraço forte, professor.
continuemos...

Jo disse...

O limite ensina a forma fechada, tipo parede, muro, porta sem fechadura ou ensina a transpor? Sabe, fico pensando nas noções q convergem e q afastam e o limite de longe me passa isso. Aff, nem reza brava...rs


:*

Ana Maria disse...

Escrever o impossível, é possível.
Dizer tudo, é permissível.
Beijinhos!

Letícia disse...

Todo texto chega como um milagre. Mesmo que seja por meio de um palavrão qualquer porque há limites sim e a gente luta numa guerra louca pra quebrar tais limites. Eu costumava ler seus textos. Volto a ler e sinto assombro de quem abre a porta e encontra um embrulho com todas as notícias. Que venha o fim do mundo porque escrever ainda não terá limite. Nem o medo que sinto. Nem o medo que você possa sentir.

Pra que títulos se o texto já é maior deles?

Um abraço.

Letícia

myra disse...

tudo verdade...
outro abraço, myra