26 de dez de 2009

O nascimento de menino Jesus

José Cemí nasceu em condições absolutamente adversas. Joana estava sem o narrador, que tinha saído pra contar algumas estórias verossímeis, a fim de garantir a sua sobrevivência, ou, pelo menos, tentar.
Com o narrador longe, tudo podia acontecer, o pior. Mas também o melhor. Ela já não pagava o aluguel do barraco há meses: foi despejada. Grávida, sem ninguém pra ajudá-la, resolveu procurar José, o pai, agora traficante. Mas nada de encontrá-lo, em parte alguma.
De repente, as contrações do parto começaram a se manifestar. Ela estava no centro de Belo Horizonte. Tentou encontrar alguns hotéis baratos, na altura da Avenida Paraná, mas todos exigiam que ela efetuasse o pagamento com antecedência, o que ela não podia fazer, sem um tostão no bolso, e então alegava que era amante do narrador, que voltaria de viagem, e resolveria tudo. Vá embora sua vadia! A mesma frase ecoava aonde ela fosse, pois o narrador era desconhecido de todos, de modo que quanto mais ela o mencionava, como uma espécie de cheque caução simbólico, mais Joana era desprezada, e enxotada pra fora de todos os dentros.
Então ela apareceu no hospital Odilon Beres, da prefeitura de Belo Horizonte, mas os médicos estavam em greve. E saiu, sem destino, pelas baixadas do bairro Lagoinha, até que, debaixo de um daqueles viadutos ali, daquela região, ela foi finalmente acolhida por alguns mendigos:
- Alegra-te, cheia de graça, o senhor é contigo, bendita tu entre as mulheres!, disse
uma das mendigas.
- Pode entrar, disse outra, é simples nosso viaduto, mas é digno. Não temas, Joana, porque encontraste graça diante do Dono de todas as coisas, e conceberás por sua palavra.
- Deverei conceber por obra do senhor Deus vivo e parir depois como toda mulher pare? –perguntou Joana.
- Não assim, Joana, através de seu corpo te cobriu Deus, o satanás voraz de corpos juvenis, por meio da presença fálica do Espírito Santo, o antes ingênuo José, o carpinteiro; agora com sua sombra te cobrirá o poder do senhor. Por isso o ser santo que nascerá de ti deve ser chamado Filho do Baixíssimo. Dar-lhe-ás o nome de José Cemí, pois salvará seu povo da perdição e da ignorância geral, de ricos e de pobres, guiando-os pra que se tornem guias de si mesmos, através da glória de uma nova época, a que nos tornará aptos pra viver em abundância de afetos, e nós todos seremos os filhos bastardos da mesma terra órfã, e ninguém será dono de nada, aleluia! Seja você, Joana, a manifestação desse novo começo, um mínimo pedaço da terra órfã, ela toda.
Cada louco saía delirando uns fragmentos bíblicos, a dizer todos os nomes de Deus, que ali estava pra nascer Cemí, o salvador, que é o Cristo, o Senhor Barroco, o Conselheiro Magnífico, o Todo Poderoso em sua fragilidade absoluta, no nascimento; o Príncipe da Paz, o Deus dos Pobres, Deus Misericordioso, Aquele que é Aquele que é, o dia e a noite, o inverno e o verão, a morte e a vida, a fome e a saciedade, O que muda como o fogo e quando é misturado com fragrância de flores é nomeado segundo o tipo de perfume, O inominável, singular e plural, YHWH, o tetragrama, as quatro letras, os quatros primeiros números, 1,2, 3, 4, o artilheiro, o camisa 10, 1 + 2 + 3 + 4; Yahvé Alá Buda Jesus, os pontos cardinais e, principalmente, a multiplicidade infinita de pontos entre o sul e o leste, entre o norte e o oeste, e entre todos entre si; o Deus incompreensível aos olhos do legitimado, o Ilegítimo, o Inverossímil, o Desacreditado, o Intercessor, aqui e lá, flor desabrochando, acendendo o brilho das estrelas .
A prova incontestável de que naquele ventre sagrado habitava o Criador, dizia um mendigo de olhos arregalados, estava no fato de que todos os mendigos viram cair, naquele exato momento, uma estrela cadente, e todos ao mesmo tempo fizeram o pedido de, do rabo luminoso daquela estrela, fosse projetado pro mundo o salvador dos pobres, Cristo, o espírito a um tempo mais pesado e mais leve que esta terra já viu, portador da dignidade da era da pobreza, olhar lançado e laçando o horizonte do banquete pra todos.
Rápido, rápido, um mendigo carpinteiro improvisou uma cama feita de caixotes pra Joana. Sobre as tábuas jogou bastantes jornais velhos, um dos quais trazia a manchete de que Lula teria dito que iria realizar uma ampla reforma agrária, mas que era preciso esperar, porque faltava dinheiro no caixa do Tesouro Nacional. Foi exatamente o jornal que ficava entre as pernas arreganhadas de Joana, por isso era possível não só ler o artigo, mas visualizar, também, uma foto do rosto do presidente Lula, com o boné do MST na cabeça, a assistir, impassível, o nascimento do menino Cemí, de camarote.
Com os mendigos todos em volta, assistida por um doido que acreditava ser médico pediátrico, o menino Cristo foi nascendo, segundo o relato dos mendigos, que o narrador coletou tempos depois, por não ter podido acompanhar a hora do nascimento de José Cemí.
O doido mendigo médico pediátrico, assim que José Cemí nasceu, o colocou no colo, limpou-o com o mesmo jornal que trazia a foto de Lula, maculando-a de sangue, e, em seguida, foi fazendo, lentamente, um giro de 360o, a fim de ir mostrando o menino a todos os mendigos, que estavam entorno.
Em coro, logo após o último mendigo ter visto o recém-nascido, todos gritaram, felizes: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade, o menino Jesus nasceu pra nos salvar, o paraíso, a paz, vem dele, do menino Jesus envolto em jornais velhos. Glória a Deus aos homens de boa vontade! Nasceu o salvador. Aleluia, Aleluia! A era imaginária do estilo da pobreza finalmente desponta da dissonância estridente emanada do choro do Cristo Salvador: uennn, ueennnnn, uennn!”

8 comentários:

Thalita Covre disse...

Luis, fiquei tonta com a leitura.
Muito movimento.

Sua escrita me faz pensar e tentar continuar lendo devorando livros para chegar até ti. Seu patamar é como um alvo para mim.

Gostei muito do que li.

Delirius disse...

Luis, deixa contar...

-Adorei tua visita, obrigada, e não esqueça de voltar.

-Hoje..., me perdoa amigo ser visita de doutor, teu livro é p'ra ler com a merecida atenção, eu amo ler mas... saboreando pelo caminho!
Hoje não dá, é muita letra p'ra ler... ;))
Mas eu volto, juro... :)))

Beijos Feliz 2010

Eurico disse...

Um abraço, meu dileto mestre. Sempre aprendo mais um pouco ao vir aqui.

Saúde e paz!

Silvana Nunes .'. disse...

ESPERANÇA

"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenes
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
- ó delicioso vôo!
Será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança ...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA ...."

(Mário Quintana)

FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... está aqui para desejar para você um ano de 2010 de muita LUZ. Que nele você consiga realizar alguns de seus mais importantes propósitos.
E que DEUS ÑANDE RU continue nos anemçoando COM A SUA ETERNA GRAÇA pelo resto de nossas vidas. Agradeço sua presença em meu blog durante o ano de 2009 com seus comentários sempre muito carinhosos e relevantes. E como já é tradição em nossa cultura trago algimas simpatias para entrar o ano de bem com ele. BOA SORTE.
QUE SEJAMOS FELIZES.
FELIZ ANO NOVO ! QUE OS BONS VENTOS SOPREM SEMPRE A SEU FAVOR EM 2010 !
Saudações Florestais !
http://www.silnunesprof.blogspot.com

Canto da Boca disse...

Fiquei pensando sobre o nascimento de tantos outros Jesus, como também no Daquele de Nazaré, tentando imaginar o contexto da época, ou recriar o cenário, a partir desses que nem sabemos que existem. E existem.

Um 2010 com as transformações, possíveis, caro Luis.

Beijo.
;)

Ilaine disse...

Um livro publicado! Mas isto é muito bom! Fico feliz por você, querido escritor. Novo Ano, novas conquistas. Que maravilhoso!

Obrigada, Luis, pelo carinho e pela amizade... Para muito importantes.

Beijo e muito sucesso.

Dauri Batisti disse...

Lindo texto. Uma ótima leitura. Deu gosto de ler. A atualização da história que forjou a iris dos nossos olhos, o tom da nossa voz, o odor do nosso suor.

Interessante notar:

1. tal qual foram a Belem, terra natal de José, você volta às suas raízes mineiras colocando a história com liberdade nos trajetos de BH;

2. a releitura da velha história escancarando a realidade com suas cores e sangue na cara do presidente.

3. a elevação debochada de todos à dignidade de deuses;

4. a sugestão de que a era de heróis solitários acabou. Ou fazemos coletivamente ou não nos salvamos.

Um abraço.

Coral disse...

Mais um texto para me estimular a não alcançar jamais a tão precária condição de mãe, tão precária que tiveram que inventar um mito para amenizá-la.