2 de jul de 2011

você

você é um delinquente
um terrorista
se luta pela paz
por justiças
contra as bombas
de genocídios
de liberdade
de democracia
de direitos humanos
dos - business as usual -
exércitos ocidentais

você é um assassino
um monstro sanguinário
se luta contra
o apartheid
o colonialismo
o imperialismo

se propõe
o fim do capitalismo
você é um demônio
ismo, ismo, ismo
de polvos povos
pés de abelhas
a desaguar
ismos ismos ismos
de encapetados utopismos
fora da
dopadocorporocracia
de sismos sismos sismos
terremotos atômicos
de capitalismos

você é um torturador
um ditador implacável
se propõe a solidariedade
e o livre direito dos povos
de construir seus presentes
futuras bocas em frutos
sem interferências
sem ingerências
sem maledicências
sem murros
muros

você é um genocida
um perigo contra a vida
um bárbaro comedor de
criancinhas
um pedófilo de inocentes
menininhas
o próprio diabo encarnado
no quarteto da maldade:
o bastardo
o revolucionário
o libertário
concebido como
o otário

se é contra a onipotência do dinheiro
se propõe que sejamos iguais
solidários mortais
imortais
quando defende que nada
mas nada mesmo
justifica
a fome
o abandono
a guerra
a exploração
a submissão
a humilhação
a alienação

aí sim
você deve morrer
você é narcotraficante
deve ser cassado pela Interpol
condenado pela corte penal internacional
ser objeto de sanções do conselho
de segurança da onu
ser
mal falado
mal visto
mal apresentado
mal editado
pela cnn
a rede globo
the new york times

você deve ser um
covarde
traidor
indiferente
individualista
moralista
idiota
vendido
pensar só em seu
umbigo
embora pareça
justo
simpático
amigo

se quiser
ser
respeitado
adorado
desejado
se quiser
sucesso
dinheiro
muitos
inclusive amorosos
ingressos de gozos
louvados
inteiros
punheteiros

você deve ser um poeta
despolitizado
que defende a ética
etílica da estética
da arte pela arte
fora
das praças dialéticas
da luta pelo pão das ruas
da luta pelo amor às luas
da luta por escritas nuas
de letras ivres, livres,
peripatéticas
se quiser ser publicado
no oitavo caderno
do jornal de circulação
estadual
nacional
internacional

você deve atar
narcísicos amar
sem
lisos mares
livres ares
- e -
se quiser viver
felizmente
como boa mente
deve
indiretamente
matar
as más gentes
-e-
no melhor pior dos casos
dizer
infelizmente
é a vida
é o acaso
do fatal
desengajado
ocaso

7 comentários:

Gisa disse...

Versos fortes...
Gosto.
Um bj

Raquel Amarante disse...

NOSSAAAA!!! ADOREI!!!!!!
Acidez que faz bem!

José María Souza Costa disse...

Versos que traduzem uma realidade crua e nua.
Um chamado, ao convite da reflexão.
Fenomenal, agradavéis.
Parabens

Rafael Castellar das Neves disse...

Muito boa a sua escrita! Forte, intensa e angustiante...gostei!!

Parabéns!!

[]s

Carla disse...

Há que se refletir...

Bom ler esses versos que versam o avesso dos ventos ocidentais!


Bjos

Canto da Boca disse...

Tudo é tão fora da ordem... Embora saibamos que nada de novo acontece sob o céu. O caso é a rapidez com que o "sistema", esse desconhecido (conhecido), carcome estruturas, pessoas, projetos; corrompe estruturas, pessoas, projetos. O caso é essa angústia pós-moderna que nos arrasta e nem sabemos onde vamos parar... Ao mesmo tempo que não temos um "inimigo comum", somos competidores e inimigos coletivos, sem sermos.

Bejos, la Mancha!

Mephisto, ein Teufel mit einen Zauberflöte disse...

O quem é você? A alcunha por trás de todos os nomes, a dispariedade das divagações de um não lugar em uma não habitação. A antítese da antífrase. A ironia não nata. A existência inexistente. Tudo isso faz-nos inimigos do incognoscível, e sublimes vítimas de nós memsmos.

Pungentes versos, Luís de La Mancha.