27 de jan de 2013

poema


quero
um poema
sem
valor
desembrulhado
sem essências
sem aparências
sem
que assim se enuncia:
sou pobre mas honrado
prefiro morrer lutando
que viver de joelhos
ao pau e à voz doce
à luta digital e cibernética
não quero alimentar a mão que
nos tira
a coragem
a ousadia
a criação
a invenção
o tesão
o comunismo de um mundo sem iscas de ismos
a vida
esporrando-nos desde de cima,
com cacetes pirotécnicos
do deus dinheiro
de castas dominantes não
me suicido
não me rendo
não me atento
não me fomento
no trem da história,
este é o não poema
ou o não presente,
não progresso
o capitalismo não pode parar
sempre avançando, sem olhar
para trás, pros lados
contra as arribações das gerações
sempre olhando pra baixo,
os baixios de sementeiras
de misteriosos retornos festivos
de primaveras sorrateiras
e, sem querer ver o futuro,
plutão sequestrou o presente
começa pelos cabelos
de sua filha
de sua mãe
de sua avó
de sua amante
ou de seu
filho
pai
avô
amante
se for mulher ou gay ou outra variável de existir libidinal
publicitária presença mortal
ele começa pelos cabelos de Dalila
ele a acusa de ter castrado Sansão
ele sanciona os cabelos das gentias
roubando-lhes a força de cruzeiro do sul
que delas emana, não importa, se
pelo cu
rabo do tatu
ou se pelos rastros do urubu
não esperes ver esta notícias no mundo
patriarcalmente feminino, espetacular
não percas tempo com o luto
deixem que os mortos enterrem os mortos
aquele ou aquela que estiver preso
no sonho
no desejo,
na presunção
das mais-valias
financeiras
narcísicas
simbólicas
raciais
faciais
poemáticas
estamos fodidos
não existem poemas revolucionários
sem disformes disconformes conteúdos
vulneravelmente visionários

o que é estar livre na carona de ninguém?
e o que é estar preso no pesadelo de alguém
de normalidades
de privacidades
commoditydades
?
está condenado a transformar
o trabalho
em não trabalho
o valor
em não-valor
o saber,
em não-saber
o viver
em não viver
contra
a galáctica das
imponderáveis
impossíveis
inimagináveis,
injustificáveis
estrelas nas mãos das ruas nuas
em
saque
pilhagem
genocídios
limitação
sofrimento
infanticídios
peço às ruas nas mãos das estrelas
que propaguem às infinitésimas manivelas
dos navios dos lances dos acasos
nos lances de alegrias
que o leão é sanguinário em toda sua geração
de fáticos poderes de sagradas profanação
ele sorri enquanto ruge os tambores da desgraça
tinha me esquecido de que o rio não é impossível de navegar
e que é navegável apenas arriscando a vida pessoal
esse esquecimento me arrebatou nos rochedos de uma única dispendiosa
lembrança: eu de mim mesmo, me matando de tanto medo de morrer
fora dentro do rio da ursa menor de sorver, crer, lamber, viver
agora que esqueci de mim mesmo posso finalmente atravessar
o Liso do Sussuarão
ser a Macunaíma das espumas que golpeiam as cidades
com os subúrbios das festas das surubas
cinemáticas
sinérgicas
internéticas
proféticas
inéditas
não me venha com conclusões
a única conclusão é viver
tsunâmicas ondas de mares verdes de desforras de desabrochar
fora
das privadas propriedades de particulares submissões planetárias
e de tantas outras que se movem no sedimento mais profundo provocado
pela corrente dos monetários fundos em direção ao mar
dividindo-nos progressivamente na erosão da praia seca do que arrogamos
como sendo o nosso próprio sempre contra o que acusamos de impróprias
são delas que o poema vive
das impróprias
nelas o poema se faz
umas
vivacidades
singularidades
pluralidades
entre outras
não menos impróprias
disparidades

4 comentários:

Dauri Batisti disse...

O Eustáquio refazendo nossas vivacidades, nossas rebeldias, nossas rebeliões, mesmo estas, pequenas, que se condensam no olho que lê a poesia e decide PODER, decide exercer um PODER, posso ser empoderamento das poesias, das vivacidades.

Ana Bailune disse...

Um poema não-poema que verdadeiramente, é um poema da vida.

São disse...

A sua poesia é sempre um grito de desafio a esta sociedade venenosa que nos asfixia!

O meu abraço forte.

Bandys disse...

Uma poesia revolta de verdade e rebeldia.

Bjs