24 de fev de 2013

danos colaterais

a puta palestina
na linha de fogo
com a língua no míssil do moço
sob a mira de um disciplinado soldado
israelense
em angelus missa de insubmissa civilizatória missão
que não sabe o que fazer com o tesão
tido
contido
convertido
senão transformá-lo em estupro balístico
contra o corpo feminino
combalido
partido
sido
nunca vencido
tornado realístico
destinos
tinos
nos Auschwitz
retiros
dos tiros
após tê-lo chupado deliciosamente
num sublime abandono de seu posto
de vigilância, na fronteira de Gaza,
recebe como pagamento
logos espermáticos
de
nojos,
superioridades,
ódios
legalísticos
na boca estelar da puta palestina
boca lance de dados que jamais
aboliria o acaso
constelar
cioso
paladar
saboroso
do encontro
molecular
amoroso
da palestina com o israelense
Julieta e Romeu
fora de toda filiação
nacional
linguística
étnica
tenha ou não
genealogias
bíblicas
a impor o por da porra de ser
já era
não pode ser
é impossível
já morreu
não dá
nunca deu
boca de lábios de chuvas de cosmos
a da puta palestina
de amanhãs no ontem do agora hortelãs
sagrada boca tecelã que poderia salvar o mundo
com a só lambida profana nas fálicas orações
ocidentais
medievais
gregas
romanas
turcas
egípcias
pérsicas
chinesas
monumentais
realizações
faraônicas
ornamentais
das milhões de mentiras que viram
biônicas
monoteístas
verdades
humanitárias
guerras de destruição massiva
austeridades
de proprietários gângsteres
democracias exemplares
de policiais estados vaticinares
disfarçados por civis eleitos pelo dinheiro
fofoqueiros
publicitários
especuladores
de paquetes de boquetes
de usurários destinos manifestos
sérios
respeitados
sobrenomes de grifes de parasitas
gerações de patriarcais grilhões
nela e através dela
para ela
contra elas
a puta palestina
é ela que eu sou,
a puta das tretas
nas desordeiras tetas
das esperanças de mutretas
sem vinganças de muletas
que fez um soldado relaxar
e gozar
e à estrangeira
a puta das fronteiras
amar
vadiar
países,
raças,
tribos
povos
delírios
passear nas delícias do pazear
por bobeira
sem beira nem eira
ela sou eu,
e foi ela-eu
que Eles-nele
o soldado sionista
hipnotizado
castrado
tomado
panoptizado
em nome de santas
calças
cousas
lousas
causas
bélicas
monumentais
tecnológicas
lógicas
sapienciais
que me matou
sou ela
que morreu
com uma bala na testa
assim que seu pau carnal
afrouxou
seu pau de tecnologia israelense
fornecido pelas sevícias estadunidenses
ergueu
gatilhou
assassinou
con-fodidamente
a mesma puta dependente de craque
abandonada pelos
governos
saberes
dizeres
mostrares
viveres,
ordens
progressos
poderes
deuses
fiéis
convertidos
invertidos
divertidos
nas praças das catedrais
nas filosofias judiciais
ela sou eu
sou eu a mãe
nela
do pivete que nasceu
dela
jogado no lixo dos luxos
anoiteceu
abandonado pelas mães dos escolhidos
seus
órfão de
ocidentalismos
orientalismos
oficialismos
amiguismos
filho de Caim de Caim de Caim de Caim
paridos milenares de todas filhas das putas
idos sem ídolos
sempre partindo
usurpados
vínculos
emergindo
bem-vindos
ele sou eu
o roubado que me roubou
o matado que me matou
o seqüestrado que me seqüestrou
o faminto que me devorou
sou eu nele que ele é nela
na palestina
na puta de sua mãe
no rosto de pele e osso
nos olhos o fosso
da menina somali
com o estômago vazio de nossos cheios
de modo que quanto mais
nos fartamos
nos gastamos
nos festejamos
nos elegemos
nos alegramos
nos protegemos
nos patrocinamos
nos escolhemos
os melhores
os escolarizados
os matematizados
bem
informados
informatizados
pessoalizados
democratizados
civilizados
particularizados
apontando
pros
piores
vitupérios de impérios
sou eu a menina engatinhando
na fronteira de Paquistão com Afeganistão
saindo do buraco de uma caverna ancestral
que sou explodida por um míssil teledirigido
acionado por raso soldado angelical
de uma base militar civilizacional
cinematográfica
Hollywood
na Califórnia real
confundida com um terrorista rastejando
à serpente
serpentinamente
sempiternamente
o botão apertou
de sol a sol
o americano soldado
estilhaçando-a
menos um anti
americano
semítico
mítico
a bebê que um zangão matou
ela sou eu
sou eu
ávidas
danos colaterais
as caídas
perdidas
vidas

2 comentários:

São disse...

Mais um texto admirável, que toca quem o lê!

Abraço grande

Fred Caju disse...

Caralho. Fazia muito tempo que eu não ficava tão sem palavras. Agradeço por isso. Parabéns mesmo. De coração. Grande abraço!